27.12.2009
Pete Tha Zouk
Imparável
Esta entrevista quase que se pode chamar de uma actualização daquela que te fiz há um ano atrás. Há um ano estavas a acabar de construir a tua casa, onde tens o teu novo estúdio, e tinhas começado a fazer umas datas no Brasil que, já há um ano, corriam muito bem. A situação evoluiu: não só a tua casa e estúdio estão prontos como as datas no Brasil se transformaram em tournées com casas cheias. Como tens finalmente o estúdio operacional haverá um tão aguardado regresso do Pete Tha Zouk à produção?
Sim, esse objectivo foi concretizado e este Verão já vou poder apresentar duas remisturas novas. Estas duas músicas – Moony “I Don’t Know Why” e Pedro Cazanova “Selfish Love” - que pensei que seriam temas que teriam uma grande presença neste Verão. A primeira vi surgir no Brasil e fiquei surpreendido com a reacção ao vocal e quis remisturar a música. No segundo tema quis fazer uma versão mais underground.
O facto de teres ficado tanto tempo sem produzir não te fez ter mais vontade de fazer temas originais? Começaste a tua carreira com dois temas que foram êxitos nas pistas, o “First Tribal Feeling” e o “Kashmir”.
O mercado musical na altura era mais complicado. Mas eu quero dar o passo certo na hora certa. A música mudou muito desde que eu fiz esses temas até hoje. Fazendo uma análise tornou-se tão fácil e tão banal fazer música electrónica porque hoje em dia toda a gente consegue produzir um tema, editá-lo numa editora digital ou promovê-lo na internet, que eu quis apostar mais no DJing e em consolidar a minha carreira, construir a minha casa, virar-me para mercados emergentes como o Brasil. Este tempo de pausa deu-me o repouso necessário para que, se voltar a produzir originais, isso seja por uma via mais definida, mais comercial. Fazer música underground é muito interessante mas não chega, porque se olharmos para as playlists de top DJs mundiais facilmente percebemos que é com temas mais comerciais que contam com vocalistas convidados, videoclips a rodar, ou até remisturando bandas conhecidas que se consegue chegar às massas. O caminho é por aí. Não adiantaria para mim estar a produzir originais ligados ao tribal, que era a minha primeira grande influência, porque isso não teria tanto impacto como se eu me dedicar a construir um tema com um vocalista. Demorei algum tempo a reunir as condições para que isto pudesse acontecer mas já consegui. O que acontece é que o facto de andar a viver entre Portugal e o Brasil, nos últimos tempos, não me têm dado o espaço, tempo e habituação ao estúdio que são necessários para produzir um original como desejo. Optei por voltar ao estúdio pegando nestas duas remisturas e a seguir pretendo partir para um tema original mas com um vocalista convidado.
O que estás a dizer é que aquilo que ouviremos do Pete Tha Zouk no futuro será algo completamente diferente daquilo que ouvimos no passado?
Sim, penso que será um artista reinventado. Temos exemplos contrários como o Dubfire, por exemplo, que com os Deep Dish produzia temas mais comerciais e que hoje em dia, a solo, se especializou em temas mais minimais e underground. Ele reinventou-se e funcionou. Creio que o volte-face musical é possível desde que seja bem feito.
Recebes música de quem?
Recebo música de quase todos os grandes produtores mundiais. Antigamente existia a VIP list e só mandavas música para quem estava nessa lista restrita. Hoje os grandes produtores mandam música para toda a gente. Os DJs querem tocar por isso espalham o mais possível a sua música.
Isso é um sinal dos tempos, há um ano ou dois prevalecia o medo de a música ir parar a sites que a distribuíssem legalmente – era o espectro da pirataria a destruir a indústria musical – nos dias que correm estamos um passo à frente disso: todos querem espalhar o mais possível a sua música porque, ao fazê-lo, vão conseguir mais exposição e isso significa mais actuações...
Completamente, espalhar a música é a base dos DJs/produtores e sempre foi. Porque isso faz com que eles se vendam como DJs. A música tem que ter o objectivo de te comercializar como músico ou como DJ, este fenómeno também acontece com as bandas: elas têm que produzir mais música para conseguirem vender concertos. É aí que se ganha dinheiro, não é nas vendas de música.
O que é que usas para produzir?
Basicamente dois softwares: o Logic Pro e o Ableton Live.
Não te irrita o auto beatmatching do Live?
Torna-se ridículo porque qualquer um pode ser DJ, mas no meio dos DJs profissionais nós conseguimos reconhecer quem usa essa ferramenta e dar-lhe o devido valor.
Ainda que há muito mais do que beatmatching na arte do DJing...
Sim, há inúmeras situações em que por mais auto beatmaching que tenhas ninguém te dá a selecção musical e a leitura de pista. Há uma série de factores que são impossíveis de uma máquina emular. Mas, sim, é mais um factor para dificultar a vida porque a tecnologia faz com que qualquer um possa ser DJ e torna-se mais difícil distinguir o trigo do joio.
Uma vez mais quem decide é o público...
Claro, a função do DJ é divertir quem está na festa. Se conseguires fazer isto bem feito de certeza que o público te vai acarinhar e a tua carreira vai progredir. O público tem o papel determinante.
Fala-nos do Brasil. Eu já vi os vídeos no youtube e pude comprovar o sucesso que tens feito em terras de Vera Cruz. Como é que tens vivido essa experiência?
Numa palavra: inacreditável. Comecei a ir tocar ao Brasil há cerca de um ano e meio e só nos últimos seis meses já lá fui cinco vezes. Foi fácil as pessoas gostarem da minha música, a ligação com Portugal é importante apesar de ser complicado furar no mercado brasileiro, porque eles são proteccionistas e unidos no que toca ao que é deles, por comparação nós somos muito mais abertos, convidamos muito mais DJs internacionais. Enquadrei-me muito facilmente e curiosamente não é nada diferente daquilo que faço em Portugal. A coisa foi tão bem feita no que toca à selecção dos locais onde toquei, às festas, a tudo que hoje em dia tenho solicitações mensais para estar no Brasil. Claro que é impossível ir ao Brasil para fazer uma única data.
Uma curiosidade: como é que reages quando tens uma noite má? O que é que te irrita? Um mau sistema de som?
O som ir abaixo, é das piores situações pelas quais um DJ tem que passar. É muito chato porque a culpa não é do DJ mas somos nós que damos a cara. Claro que as coisas resolvem-se e a festa continua mas fica um mau estar de pensar que pode voltar a acontecer.
Texto: Sónia Silvestre; Fotos: Victor Hugo
www.petethazouk.com
excerto da entrevista publicada na revista Dance Club nº144


