28.01.2010
Mastiksoul
O Grande!
Olá, Nando, como estás? Obrigada por nos receberes em tua casa e por abrires as portas do teu estúdio, foi aqui que nasceram hits como o “Jacobino”? Ou foi entre o aeroporto e o estúdio?
Olá, estou óptimo. Não, nasceu tudo aqui, eu já não consigo fazer música no avião porque adormeço. Uma vez acordei e estava o meu computador lá no fundo do avião, veio o comissário de bordo perguntar-me se era meu. (risos) Caiu e foi aos trambolhões até ao fundo do avião. Não dá, é uma vida muito cansativa, muitas viagens, as pessoas não têm noção. Há tempos levei o Pedro Gil comigo, quando cheguei a Lisboa nunca mais o vi! Disse-me que não sabia como eu aguentava, e foram apenas 8 voos num fim de semana!
A maior parte das pessoas pensa que a vida dos DJs é uma loucura. É só glam e diversão?
Nada disso. Este fim de semana, por exemplo, toquei num festival na Holanda e quando lá cheguei não estava ninguém à minha espera. Esperei uma hora pelo condutor, que chegou à meia noite e meia, e queria levar-me directamente para a festa porque eu tocava às duas. Eu disse-lhe que ele devia ser maluco, que tinha que passar antes no hotel para deixar as minhas coisas e refrescar-me. Assim foi. Toquei e voltei para o hotel, passado uma hora o tipo acorda-me para ir para o aeroporto porque o voo era às 6 da manhã. Não é fácil. As festas são boas, aí divertimo-nos.
O nome artístico que escolheste – Mastiksoul – tem alguma história?
O meu nome artístico foi me dado. Eu trabalhava com um pessoal em Londres, quando estava a estudar na SAE, e tínhamos projectos de film scores para a televisão. No estúdio, o pessoal era israelita, e faziam uma música muito recta, sem groove, e eu não gostava daquilo. Então pedia-lhes para me darem um bocadinho e lá fazia com que a música ficasse com mais calor e mais ritmo. A minha cena era muito batucada para eles. A cena deles era muito minimal. Então, por causa disso, começaram a chamar-me nomes e até que um dia me chamaram “funky chewing gum”, porque eu era todo muito funk. Depois passou para “mastik” porque “mastik” significa pastilha elástica em Israel. E depois passou para Mastiksoul. Escrevi o nome num papel e achei que tinha impacto e mantive-o.
O teu interesse por produzir música e por tocá-la como DJ começou quando?
O primeiro disco foi de techno e foi produzido pelo A.Paul, e isto foi em 1996. Mas, às tantas,o techno cansou-me, os discos eram todos muito parecidos e muito cansativos. O techno tinha perdido a aura que tinha inicialmente. Depois apareceu o tech house e foi uma lufada de ar fresco, porque era uma mistura entre o techno e o house, foi algo que me marcou e decidi enveredar por esse caminho. Entretanto preocupei-me em aprender a produzir decentemente, quis saber fazer antes de mandar promos para alguém. Quando achei que já sabia fazer música como deve ser então mandei as demos e consegui editar os discos. Depois foi o processo normal, os convites foram aparecendo. Mais tarde houve uma fase em que fiquei muito preso a um som mais americano e fiz algumas tournés nos Estados Unidos. Ainda hoje me perguntam porque é que não volto lá.
E porque não voltas?
Porque não têm dinheiro para me pagar! O mercado norte americano é muito pequeno, não é o que as pessoas pensam, as festas lá levam 200 pessoas. E não há cachet, pagam cerca de mil dólares e as viagens são caras. A cena é muito pequena. É triste mas não me compensa ir lá tocar. Na altura foi bom porque editei discos pela Tango, fiz muitos projectos com o DJ Sneak, foi uma época diferente porque ganhei nome nos Estados Unidos, tive edições em boas labels, mas em termos globais a cena americana estava a perder muito impacto na cena global.
Profissionalmente já chegaste muito longe, há alguma coisa que te falte conquistar?
Eu tenho um objectivo... tenho uma residência no Canadá, num club chamado The Government, e o Steve Lawler, apesar de não ser residente oficial, é como se fosse, porque toca lá de dois em dois meses. Uma vez descobri quanto é que ele ganhava cada vez que vai lá tocar e... caiu-me mal o almoço! É dez vezes aquilo que eu ganho para lá ir e eu já não ganho pouco. O meu objectivo é ganhar como o Steve Lawler! (risos)
Texto: Sónia Silvestre
excerto da entrevista publicada na Dance Club nº140

