08.03.2010
Basement Jaxx
Disco Novo, Fim Anunciado?
Não é surpreendente que o vosso novo registo de originais se intitule “Scars” (nr: cicatrizes) mas houve algum motivo em particular para o chamarem assim?
Felix: Esta viagem chamada Basement Jaxx já dura há mais de uma década e creio que pelo caminho coleccionámos muitas cicatrizes na nossa vida pessoal. É isso que faz a pessoa que és. E este disco é quem nós somos, com muitas feridas e cicatrizes. Algumas dos espectáculos, outras das nossas vidas pessoais. Os últimos anos foram muito turbulentos no que toca à minha vida pessoal. Pela primeira vez tive a oportunidade de ter uma vida pessoal enquanto gravava o disco. No principio achei que era uma coisa complicada, ter uma vida normal. O Simon é pai e tem uma vida estável com a sua companheira. Eu perdi pessoas no último ano.
Como é que te surgiu o “She’s No Good”?
Estava a guiar por Londres e era manhã cedo. Estava a chover e na rádio tocava um tema dos anos 50 e vi um casal a despedir-se à entrada do metro, um beijo de despedida antes de irem para o trabalho. Vi tanto amor ali que foi inevitável não pensar na minha situação. Comecei a dar com a cabeça no volante e a cantar “she’s no good”. Acabei por gravar no meu telefone e ficou bastante fixe! Fomos para estúdio depois desse episódio e arranjámos uma maneira de pôr música na letra e tentar não fazer dela um clássico dos anos 50. Lembrámo-nos do Eli Paperboy Read e pensámos que a voz dele seria perfeita para a canção. Ele gostou da ideia e cantou-a.
A vossa lista de convidados é extensa e bastante interessante, talvez mais do que o habitual, durante muito tempo habituaram-nos à ideia de um punhado de vocalistas pouco conhecidos que cantavam (e bem) os vossos temas. Em “Scars” a lista de vocalistas convidados é impressionante: Kelis, Yoko Ono, Santogold...
Pois é, mas aconteceu assim e de uma forma natural. Fizemos muita coisa sem um plano inicial e evoluiu assim. No início, a Yoko Ono era uma das pessoas em quem eu tinha muito interesse. No principio até só queria entrevistá-la e conversar com ela sobre o universo e a perspectiva que ela tem dele. Ela veio do mundo hippy, da paz e da love generation, e eu estava interessado em saber qual era a ideia e a atitude dela em relação ao mundo nos dias que correm.
Com as Yo Majesty foi uma experiência delirante. Nós fomos para Nova Iorque para fazer gravações. Já tínhamos ouvido algumas músicas delas e achámos que tinha tudo a ver com a energia de Basement Jaxx. Elas chegaram ao estúdio e queriam montes de erva e brandy. Eu estava no estúdio a gravar meio sozinho porque o Simon tinha que andar a correr porque o filho e a mulher estavam doentes. Passei o tempo todo a pedir-lhes que não dissessem certas palavras e a pedir se podíamos variar um bocadinho. Mas elas diziam: “Nós dizemos o que dizemos e é assim que funciona”. A Jules estava a gritar como se a estivessem a matar, o engenheiro de som que estava a trabalhar lá virou-se para mim e disse: “eu nunca vi nada assim em toda a minha vida”. Foi uma cena fora de controle. Elas fazem sempre o que querem, a toda a hora e sem ordem nenhuma, o que é fantástico. São pessoas verdadeiramente simpáticas e muito positivas, foi uma experiência muito gratificante.
Com uma carreira tão longa de certeza que vocês serão as pessoas ideias para fazer esta pergunta algo banal: o que pensam da cena da música de dança nos dias que correm?
Achamos que está muito saudável neste momento. Atravessou um período mais chato nos últimos anos já que chegamos a um exagero no minimalismo, se bem que creio que isto acontece em qualquer forma de arte. Ficamos fartos das coisas e queremos deitar tudo fora e reconstruir. Estávamos no Japão para tocar no Fuji Rock e no dia seguinte fomos para Tóquio e fizemos um DJ set com os Crookers e com uns tipos chamados Bloody Beetroots e foi uma festa excelente. Muita coisa está a regressar ao passado mas está a ter um feeling de renovação, o que é óptimo porque a energia ainda está presente e os miúdos mais novos estão a adorar.
É verdade que têm outro disco pronto?
Sim, chama-se Zerphyr. É um EP de oito músicas que foi inicialmente pensado para sair juntamente com o “Scars” mas depois toda a gente nos disse que era má ideia porque ninguém quer álbuns duplos, e devem ter razão, por isso podem ouvi-lo no nosso site.
Texto: Francisco Ferreira
excerto da entrevista publicada na Dance Club nº146

